Mais atenta às questões locais não tinha parado para ler sobre a morte do menino arrastado em um carro na última quarta-feira no Rio. A capa da Veja despertou meu interesse. Vê-se logo que a revista não vem para debater a violência, mas alertar para a barbárie no nosso País. Com os olhos vidrados naquelas páginas que relatam o fato que chocou o Brasil (e eu, no domingo, na corrida do Jerico) não contive a tristeza. Apertei meus filhos e agradeci a Deus por não ser eu aquela mãe que chorava e pedia para que tirassem o menino do caixão. Nem dá pra imaginar que dor é essa. Mas somos obrigados a refletir: podia ter sido um de nós.
É possível que dentro de algumas semanas o caso caia no esquecimento. Nós, brasileiros, somos assim. Hoje estamos chocados, discutindo sobre sensacionalismo da imprensa, maioridade penal, ECA, Lei de Execução Penal, sistema carcerário, mas amanhã...ah, amanhã é carnaval e a vida continua. É como calar o Maracanã por um minuto e depois deixar a bola rolar. É a banalização completa de tudo o que nos envolve diretamente. Somos avisados que algo precisa ser feito, mas não fazemos absolutamente nada. Que inveja dos jovens que foram as ruas pedir diretas já, daqueles que lutaram contra a ditadura militar. Para mim, João Hélio (o menino arrastado) poderia se chamar Stuart Angel (Paulo), filho de Zuzu Angel, torturado e morto na Base Aérea do Galeão quando lutava pela democracia. Que diferença tem? Nenhuma. Ambos foram vítimas da mesma violência. Antes eram os militares, hoje são os bandidos (extra-oficiais) que ditam as regras.
E de quem é a culpa? Os intelectuais de plantão vão continuar com seus seminários para discutir o destino do Brasil. O Congresso não vai fazer sessão Extraordinária para discutir a barbárie que tomou conta das ruas. A culpa não é só do PT que está no poder ou dos partidos que fazem oposição ao Governo. A culpa é geral. Cada um tem voz e, agora, deveria lutar para ter vez. Quantas mães ainda vamos ver chorar sobre o caixão de um inocente? Hoje sai de casa com uma terrível vergonha de ser brasileira.
Tomo a liberdade de dividir algumas opiniões publicadas na revista Veja em excelente reportagem feita pelo jornalista Marcelo Bortoloti.
“Chega de explicações. Todo fenômeno de degradação social tem explicação. A queda de Roma, a ascensão de Adolf Hitler, a proliferação do mal bolchevique pelo mundo, a destruição das cidades brasileiras pelos criminosos e seus asseclas, simpatizantes – ou simplesmente cegos – na intelectualidade, na polícia e na política. O martírio público do menino João Hélio está destravando a língua de dezenas de explicadores. São os mesmos que passaram a mão na cabeça dos "meus guris" que desciam ao asfalto para subtrair um pouco do muito que os ricos tinham e, assim, sustentar a mãe no morro. Chega de romancear o criminoso, de culpar abstrações como a "violência", o "neoliberalismo", o "descaso da classe média"...
"Simbolicamente, a culpa é de quem morre. Alguns jornalistas ficaram um tanto revoltados com a polícia, que obrigou os bandidos a mostrar o rosto. Terrível ameaça à privacidade. Era só o que faltava: trucidar o menino João e ainda ser obrigado a expor a cara... Que país é este? Já não se pode mais nem arrastar uma criança pelas ruas em um automóvel e permanecer no anonimato?"
ivonete@rondoniagora.com
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
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